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O SIDA, outra vez / AIDS again

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Um recente estudo, divulgado pela Agência Reuters, indica que cerca de um em cada cinco homens gays ou bissexuais das 21 maiores cidades dos Estados Unidos estão infectados com HIV e, quase metade destes, não têm conhecimento da sua condição clínica.

Contudo, pelo (pouco) que se pode ler do estudo estes dados não parecem ser muito credíveis. Nao só o número de elementos estudados foi muito escasso (8153 homens para 21 cidades densamente populadas) como a forma de processamento de informação parece ter sido algo «politicamente incorrecta», ou melhor, parece servir demasiado bem a certas intenções políticas.

Senão vejamos: o estudo separa homens brancos e homens negros («young black man» é o termo utilizado); afirma que estes últimos são os que maior probabilidade têm de não só serem HIV positivos como de não saberem que o são (não terá isto a ver mais com condições económicas e de acesso aos serviços de saúde do que com a cor da pele?); as expressões usadas são sempre hiperbólicas: «alarming situation», «the severity of the impact of HIV in the gay community », ...; por último, o estudo não apela a uma mudança de comportamento sdentro da comunidade GLTB, mas antes a uma maior acção governamental.

Ainda assim, vale a pena reforçar a ideia de que, independentemente da orientação sexual, o uso de preservativo ainda é a única forma de protecção contra este flagelo. Por isso, façam muito sexo, mas façam-no como deve ser!

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According to a recent study, made public by Reuters, nearly one in five gay and bisexual men in 21 major U.S. cities are infected with HIV, and nearly half of them do not know it.

But something seems not to be in place: the study data is not fully published and for what is presented it makes us think about its legitimacy. The number of elements studied were very few (only 8,153 for 21 big cities) and the way the data is presented may look as «politically incorrect», or as serving too well some political views.

The study was made based on the elements' «race» and it goes as far as to use the expression «young black man»; it states that this «young black men» have a higher change of being HIV positive and (also) of not knowing about their health condition (while this seems more to be a case of lesser economic conditions and access to health services than of a question of skin colour...); the expressions used are highly hyperbolic: «alarming situation», «the severity of the impact of HIV in the gay community »,... ; and last, the study does not call for a change within the community but for a stronger governmental action.

Nevertheless, it is still very important to call the attention to all - regarding of one's sexual orientation (or skin colour)- for the seriousness of the disease and the importance of safe sex. So, go out and have lots of fun but be sure wear your condom!


Entretanto divirtam-se com este vídeo educacional.../ Meanwhile, have a laugh with this education video...

Hiper-erotização e valor simbólico do sexo

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Estou convencido que esta sociedade global, e refiro-me ao conjunto das sociedades ocidentais, americanizadas e ligadas pelo mercado e por uma mesma cultura de massas, não valoriza suficientemente o sexo. É evidente a exploração imensa que se faz do sexo, a intensa erotização presente na publicidade, o falso valor de uso do desejo sexual. Mas isso, no meu entender, não significa que vivemos numa sociedade preocupada em incentivar-nos a ter mais e melhor sexo. Interessa mais, a quem quer vender produtos, o valor simbólico do sexo que a sua prática. Interessa que um produto fique associado ao sucesso junto do sexo oposto, interessa que um videoclip misture a sedução da música com a sedução sexual, interessa que emagrecer, cuidar da pele, fazer desporto sejam vendidos como forma de ter mais parceiros e não como promoção da saúde. Mas não interessa muito que as pessoas conheçam melhor o seu corpo, se apercebam das suas inibições, tirem mais partido da partilha do prazer. 

Acabamos por viver numa sociedade de contradições. Ao mesmo tempo que tudo é erotizado, carregado do valor simbólico do sexo, ao mesmo tempo que nos tentam vender sexo na publicidade de sabonetes e detergentes, mantêm-se os preconceitos e os moralismos. Não mudou assim tanto a atitude em relação às mulheres que são vistas como "demasiado liberais". Este é um exemplo deste parodoxo. Ao mesmo tempo que nos dizem, na publicidade de um carro, "sexo, sexo, tudo é sexo, carros são sexo, compre o carro, compre o sexo", somos reprovados se depois damos mesmo "demasiada" importância ao sexo. Como sempre, a reprovação é maior no caso das mulheres. Já me aconteceu, com colegas de trabalho, começar a falar sexo, depois de me ver envolvido numa conversa sobre a pornografia. E assim que a coisa passou de um plano simbólico, a falar de como as actrizes pornográficas (e todas as mulheres por associação) gostam de levar com ele, para um plano real, todos se calaram, olhando-me com desconfiança. Uma coisa é repetir banalidades machistas, outra coisa é falar do sexo como se, heresia das heresias, fosse uma coisa quotidiana, de que provavelmente todas as pessoas gostam.

No sexo como na cultura, somos mais consumidores do que outra coisa. Consumimos a música que nos é vendida com uma imagem sexualizada, compramos os produtos que a publicidade vendeu através do sexo implícito,  consumimos os filmes de actores e actrizes que investem muito numa imagem  que atice o desejo, consumimos pornografia e, nos últimos tempos, compramos livros que usam a expressão kama sutra para se revestirem da autoridade de um manual de sexo. Consumimos o tudo o que está à volta do sexo, tudo o que usa o sexo para se vender. Mas, perguntemo-nos, fazemos mais sexo do que há uns anos atrás? Mais, fazemos melhor sexo?

Foi bom para ti?

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Algo que contamina o usofruto do sexo, numa relação, é a obssessão pela performance. Ao contrário dos outros animais, nós avaliamos e somos avaliados pelo que se faz durante o coito. Os outros animais são avaliados pela performance durante os rituais de acasalamento. Depois a cópula em si serve apenas para formalizar, concretizando, a inseminação. Geralmente, são os machos que têm de actuar para as fêmeas, em danças e outras formas de demonstrar aptidão, saúde e bons genes. Nós também temos alguns rituais, também temos corte, também temos machos a exibir os seus dotes e vantagens sobres os demais. Mas, ao contrário dos outros animais, com os humanos a parte mais importante vem depois de se ser escolhido.

Durante muito tempo - quase toda a história da humanidade - os machos humanos não tiveram de se preocupar muito com a performance. No coito, não era suposto as mulheres terem prazer. O sexo servia para permitir a procriação e para a satisfação dos homens. Uma mulher que demonstrasse ter prazer ou sequer gostar de sexo - e o contexto em que falo é o das sociedades ocidentais, nos últimos séculos -, arriscava-se a ser considerada depravada, indecente, o que poderia trazer consequências sociais graves. Isto não mudou completamente, havendo ainda a mentalidade "o que tu queres sei eu", que atribui às mulheres uma suposta tendência (mal) disfarçada para a depravação, sendo que a depravação é tão só gostar de sexo. De qualquer forma, nas últimas décadas, o prazer feminino foi um dos eixos de um empowerment importante, que resgatou para o quotidiano os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres. 

Desde os anos 80 do século XX que as revistas femininas ocupam muitas das suas páginas com temas relacionados com o prazer sexual das mulheres. É possível ler sobre todo o tipo de dicas sobre masturbação, orgasmo, orgasmos múltiplos, fantasias, massagens, técnicas para o sexo oral, localização e estimulação do ponto G e um sem número de assuntos no contexto do usofruto da vida sexual. Toda esta literuatura serviu para encararmos o sexo com naturalidade, emancipando-o da mera função reprodutiva, estabelecendo que homens e mulheres têm a mesma legitimidade para desejar e procurar o prazer. Parece inesgotável a procura de literatura sobre sexo. Na última meia dúzia de anos, foram publicados inúmeros livros com a palavra Kama Sutra no título, e vários se tornaram best sellers. E nos últimos dois, três anos, o número de blogues portugueses em que o tema central é o sexo cresceu exponencialmente. O sexUtopia surgiu nesta altura, precisamente. Nunca se falou e escreveu tanto sobre sexo. Todos já ouvimos falar e lemos sobre orgasmos múltiplos, sobre sexo tântrico, sobre todo o tipo de proezas e habilidades, já vimos ilustrações e descrições sobre as mais variadas posições sexuais.

Este contexto, de hipertrofiado interesse e enfoque no sexo, permite que a informação seja abundante e acessível. Mas isso, ao mesmo tempo que nos ajuda a estarmos mais informados e a termos mais opções, parece criar uma pressão enorme sobre a nossa performance. Queremos igualar os campeões dos orgasmos múltiplos, os artesãos do ponto G, os ginastas do Kama Sutra, os habilidosos do sexo oral, os ousados, os que são "bons na cama". E mesmo que não nos empenhemos muito no sexo, mesmo que não seja uma das nossas prioridades, mesmo se o nosso parceiro também pensa assim, há sempre o medo dos potenciais adversários, que, sabe-se lá, serão muito mais imaginativos e sedutores e mágicos e inesquecíveis do que nós. 

E depois há o lado de quem recebe. O nosso parceiro esforça-se, empenha-se, compra os livros e estuda os desenhos e absorve tudo o que ouve dos programas de televisão e das conversas de amigos e, em seguida, põe em prática. E é precisamente a inovação com que nos presenteia que nos aborrece ou desagrada. Ou é o acto que lhe parece dar mais prazer a ele que nos deixa mais desconfortável. Como dizer-lhe o que realmente pensamos quando nos pergunta se foi bom? Não o queremos magoar, porque sabemos como ficaríamos magoados se ele nos dissesse a nós, "olha, não foi nada bom, não gostei daquela coisa que fizeste". O fantasma de uma má performance, o espectro negativo do medo de sermos "maus na cama", é tão forte como o medo de ser impotente ou de ter um pénis pequeno - mais forte e difícil de combater, diria mesmo, porque é algo que depende de nós, o que não acontece com o tamanho pénis, por exemplo. 

Vamos lá relaxar um pouco, sim? O sexo é algo de intrinsecamente agradável. E estarmos com alguém de que gostamos, nus, é manifestamente bom. Deveríamos permitir-nos ser, pelo menos de vez em quando, maus na cama, chatos, previsíveis, cansados, passivos, indispostos, trapalhões, incompetentes. As coisas vão-se aperfeiçoando. E não importa atingir mínimos olímpicos ou recordes do guiness. Importa aproveitar o tempo a sós com a pessoa amada, descontraidamente, com alegria e gratidão. Há tempo para falhar. Tempo para experimentar e para descobrir. E mesmo as conversas sobre o que se faz na cama, os diálogos que afinam e fortalecem as sincronias e cumplicidades, mesmo essas conversas são uma fonte de prazer. Vamos lá relaxar e usufruir do tempo e dos corpos uns dos outros, deixando a mente e as suas complicações para segundo plano. Da pele ao coração, não é preciso passar pelo cérebro (isto é o que se chama ser cientificamente incorrecto, o politicamente incorrecto já está fora de moda).

Nota: o contexto do que escrevi é o de relações mais ou menos estáveis; o sexo ocasional tem outras perspectivas, porque não se repete nem dá azo a que os dois parceiros se conheçam e sintonizem o entendimento. 

entrevista a Marta Crawford

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"O sexo não é só uma relação entre o pénis e a vagina"

Homens e mulheres, prestem atenção: o desafio do próximo milénio é fazer-vos entender o papel da estimulação da zona do clítoris durante o coito. Isto pode parecer estranho a alguns (e a algumas, que sempre se julgaram menos do que as outras), mas, na maior parte dos casos, a penetração não basta para fazer uma mulher ver estrelas. Palavra de Marta Crawford, sexóloga sem medo de palavras como clítoris, vagina, pénis, fellatio, cunnilingus. Pronuncia-as com à-vontade porque nada do que é humano, desde que praticado entre adultos e consentido, lhe é estranho. Está tudo, com suficiente detalhe e desenhos educativos, em “Viver o Sexo com Prazer, um guia da sexualidade feminina” e resumido nesta entrevista. Para ler e aprender...

Depois de ‘Sexo Sem Tabus’, escreve ‘Viver o Sexo com Prazer, um guia da sexualidade feminina’. Porquê?
Era o plano da editora: um livro mais genérico, dirigido aos dois sexos, um dirigido às mulheres, outro aos homens e um aos jovens.

Porquê primeiro o da sexualidade feminina?
Porque a masculina é um tema mais batido, sempre se viu a sexualidade sob o prisma masculino, as mulheres estavam lá mas tinham o papel secundário do filme. Era suposto acompanharem o homem no prazer que ele deveria ter. Embora isto seja de um tempo muito antigo, o facto é que muitos casais ainda funcionam assim.

Sem prazer feminino?
Os casais têm relações, com regularidade ou não, e muitas mulheres não têm prazer nas relações sexuais, mas acabam por participar para manter o equilíbrio do casal. O que digo é que é possível ter-se prazer na sexualidade, mas se calhar é preciso trabalhar algumas coisas para não ser um frete.

A sexualidade masculina é mais simples?
Não, o prazer feminino é talvez mais contextual, implica uma série premissas, ao nível da relação com o corpo, questões da vida, da casa, dos afectos, o que não significa que as mulheres só funcionem sexualmente quando estão muito apaixonadas, mas têm de se sentir bem na situação, são menos imediatas. No caso masculino, a estimulação é muito mais rápida. Não são necessários tantos estímulos para que um homem atinja uma certa excitação ou queira iniciar uma relação sexual e chegue até ao fim. Já a mulher reage na maior parte das vezes a uma estimulação directa da zona genital, mas são necessárias outras condições.

Porque razão oferecer um vibrador a uma mulher pode considerar-se uma ofensa?
Os brinquedos sexuais parecem uma coisa para as mulheres pervertidas, que não têm parceiros ou não ficam satisfeitas com eles. No mercado existem objectos que permitem à mulher obter níveis de prazer mais elevados, nomeadamente quando, nas relações sexuais com os seus parceiros, não há uma estimulação clitoriana.

O coito não basta?
Estou numa espécie de campanha para tornar claro que o que não é frequente é as mulheres atingirem o orgasmo só através do coito. O orgasmo vaginal é um mito.

Mas as mulheres sentem-se anormais se isso não acontece.
O propósito é o orgasmo vaginal, através do coito. Freud falou nisso: as mulheres que atingiam o orgasmo através da estimulação clitoriana seriam imaturas. Enganou-se. Mesmo porque o fundo da vagina não tem grande sensibilidade, a maior parte desta está na zona anterior, nos primeiros centímetros da entrada e na zona clitoriana. O clítoris tem mais sensores nervosos, mais até do que o pénis, e tem apenas essa função: na maior parte das mulheres, é a zona que lhes dá maior prazer, mesmo que a estimulação não seja lá em cima mas ao lado.

O que pode acontecer quando não há estimulação clitoriana?
Saturação e querer despachar o assunto. É o que acontece quando se entende que aquilo que é uma coisa óbvia – estimular durante o coito – não faz parte. Ou então que a mulher é uma coitada pois não consegue atingir o orgasmo de outra forma. Não é verdade, a mulher não é uma coitada porque precisa de estimulação nessa zona.

Há mulheres que sentem muito prazer com a penetração.
Claro. O que digo é que com a maior parte, 90 por cento, isso não acontece. O sexo não é só uma relação pénis/vagina. Isso é do tempo em que a sexualidade tinha a ver com a procriação.

Elas queixam-se nas consultas?
Há muitas que dizem sentir-se incompletas, pensam que talvez fosse diferente com outra pessoa. Pode ser um problema ao nível do casal, alguns funcionam sexualmente melhor do que outros, mas também tem a ver com comunicação e habilidade do parceiro.

O que dá prazer ao homem pode não ser o que dá maior prazer à mulher. Não há aqui há um desencontro fundamental?
A sexualidade tem sido vista à luz do prazer masculino – por isso se considera que o coito é a forma eleita de dar prazer aos dois. Mas, se continua a insistir-se na mesma fórmula, a mulher nunca sentirá prazer. Porque a obsessão em atingir esse orgasmo é tal que se despreza a estimulação de outros sítios. Então é que mulher perde a competência para chegar lá.

Os preliminares não ajudam?
Muitos casais dizem ‘nós fazemos um período de preliminares e depois passamos ao coito, ao sexo’, ou seja, a mulher já está excitada e esse grau de excitação devia continuar até conseguir atingir o orgasmo. Muitas vezes isso não acontece.

Porquê?
As mulheres passam por muitos altos e baixos na sua capacidade de excitação, lubrificam mais num certo período, depois deixam de lubrificar e é preciso voltar de novo a um tipo de estimulação mais particular, mais fininho ou mais intenso. É um jogo para o qual é preciso ter disponibilidade. Também é_importante que a mulher perceba como é que o corpo vai respondendo à estimulação, seja genuína e diga aquilo que quer. Muitas mulheres não têm muito prazer mas já estão saturadas e só querem é que a relação termine, que o parceiro ejacule.

O clítoris pode ser o tal sininho ao som do qual se diz a missa?
Há mulheres que detestam ser tocadas directamente no clítoris mas o que é certo é que indirectamente sentem prazer. O clítoris é a única parte do corpo da mulher sem outra função além de dar-lhe prazer. Há que conjugar as diversas formas de obter prazer no jogo amoroso. Não há uma eleita. Não sei se o clítoris é o sininho ou o tal botão mágico mas facilita.

O tamanho do pénis do parceiro importa?
Pensar que um pénis grande é garantia de muito prazer feminino é um mito. De facto, se homem não for habilidoso e atencioso às necessidades da parceira, de nada lhe vale um pénis grande. Pode impressionar a mulher e levá-la a fantasiar – também pode ser assustador...– mas terá pouco interesse se o homem não souber usá-lo.

O ponto G existe mesmo?
Supostamente, o ponto G, uma espécie de anel esponjoso de tecido eréctil, fica a três ou quatro centímetros da entrada anterior da vagina, por baixo do osso púbico, junto à zona da uretra. Há mulheres que referem ter muito prazer com a estimulação desta zona.

É assim tão importante?
Sou um bocado céptica em relação a tudo o que é vendido nas revistas cor-de-rosa como o novo santo Graal, primeiro o clítoris, depois os multiorgasmos... no fundo obstáculos que fazem a mulher sentir-se sempre abaixo do exequível. Agora cria-se outro patamar em que a mulher para ter um prazer extraordinário tem de ter um Ponto G e anda tudo à procura dele. O pénis não toca no Ponto G, mas o Ponto G quer ser estimulado ou através da masturbação ou de um vibrador especial. Andar à procura até pode ser engraçado, mas não faz sentido centrarmo-nos no ponto G só porque alguém vendeu o ‘produto’, nem julgar que as mulheres que não o têm são piores do que as outras.

As revistas cor-de-rosa também falam muito de sexo anal.
Antes não se falava de sexo anal, mas sempre se praticou. Quando as mulheres estavam menstruadas ou grávidas optavam pelo sexo anal. Também as que não queriam perder a virgindade o faziam, o que tem o seu lado cómico... mais uma vez, o sexo lícito é o sexo vaginal. Há a ideia de que o ânus tem a ver com sujidade ou com a homossexualidade. Falar abertamente de sexo anal faz com que as pessoas não tenham medo de pensar sobre isso e até se disponham a experimentar de uma forma que não crie prejuízo. Como as pessoas não me vêem exactamente como alguém pervertido, suponho que pensem ‘se ela fala é porque há outra perspectiva’.

O sexo anal não é mais uma fantasia masculina?
Penso que as mulheres que fazem sexo anal gostam, mas é importante que cada casal o faça de uma forma satisfatória para os dois e não só para o homem. Esse é o truque em relação a seja o que for. Há mulheres que não gostam de fazer fellatio, só que os homens gostam muito e elas não estão ali para tirar-lhes o prazer. Mas elas também gostam de cunnilingus. Tem de fazer-se o contraponto. Há casais que fazem tudo, há casais que só gostam de fazer uma coisa e não outra. Tudo bem, é a maneira de funcionar daquele casal, não tem de existir um menu e fazer-se o “check list”.

Ou seja, cada um sabe de si?
É mais: na sexualidade cada coisa vale por si, um beijo, um abraço, não é preciso ir até ao fim. Só que as pessoas estão preocupadas em atingir o orgasmo, que dura mais ou menos dez segundos – é contar até dez e já passou – que não usufruem do resto, das massagens, dos beijos. O orgasmo é bom, mas só pelos dez segundos mais vale comer um gelado. [risos.]

Em ‘Viver o Sexo Com Prazer’, refere-se a uma paciente que sentiu o primeiro orgasmo aos 36 anos através da masturbação.
Era uma mulher que nunca tinha masturbado. Tinha dificuldades na relação sexual com o parceiro, não experimentava prazer mas dor. Tudo era no sentido negativo.

O que aconteceu?
No início, a terapia é muito orientada para a sensualidade, mais genérica. Programam-se sete sessões de 15 em 15 dias. Ela levou algum tempo até que acontecesse. Sentia-se ridícula a masturbar-se. Mas acabou por criar um ambiente especial na sala, estava sozinha, os filhos dormiam. Quando aconteceu ela não sabia o que era aquilo. Não disse ao marido. Ele só soube durante a terapia. Depois ela começou a sentir umas coisinhas. Ela, que não sentia absolutamente nada, começou a sentir uma certa excitação. Nunca tinha usado lubrificantes, começou a usá-los. Para uma mulher que não lubrifica a relação coital é do pior que pode haver, a fricção é dolorosa.

E quanto ao sexo oral? Há homens que pensam que o cunnilingus é só lamber...
Pois... se calhar também há homens incompetentes. Isto não é contra eles. É dizer-lhes ‘abanem-se lá’. Eles passam a vida a dizer que as mulheres não querem ter relações sexuais, mas se calhar é porque eles são incompetentes, não porque elas são frígidas, termo que já nem sequer existe. Temos de elaborar um bocadinho mais. Pensar ‘o que é que se está a passar?’.

E o que é que se está a passar?
Se eles souberem ouvir e ver elas tornam-se mais disponíveis. O que acontece é as mulheres dizerem ‘ele só quer é aquilo’. Se ela sabe que ele só quer aquilo, então ele fica sem nada. São as pequenas atenções que fazem com que uma pessoa tenha mais desejo. Tudo o que já está completamente estipulado e que não surpreende acaba por cansar.

Há homens que parecem não gostar muito de estimular oralmente as mulheres...
E há a atitude francamente machista de sentido oposto que é as mulheres acharem, em relação ao fellatio: ‘é uma coisa que eles gostam e eu faço porque eles gostam; não me importo’, mas em relação ao cunnilingus pensam: ‘mete-me nojo ou acho que ele não vai gostar – dizem que tem um cheiro qualquer a peixe –, o melhor é não fazer.’ Ora, há mulheres que têm grande prazer nisso porque é uma estimulação muito directa, que vai directamente aos sítios, estimula a zona clitoriana, as virilhas... Quando há conjugação da estimulação oral e digital, as mulheres têm muito prazer. Naturalmente, não é uma lambidela de alto a baixo durante um minuto. Deve haver da parte da mulher um incentivo a que o parceiro, ou parceira, continue.

Há uma quase genérica resistência à utilização do preservativo no sexo oral.
É uma ideia corrente e errada a de que não se apanham doenças no sexo oral e é difícil passar a ideia de que tem de se usar o preservativo. Há muitos jovens, e não só, que ainda pensam “como ele (ou ela) é bonito, não tem doenças”. Depois da menopausa, as mulheres também pensam que ficam imunes, associam não engravidar a não apanhar doenças. Mas há uma série de doenças que são transmitidas através do sexo oral, portanto tem de se utilizar o preservativo. Obviamente que, numa relação de confiança e alguma regularidade entre um casal que se entenda como estável, não é preciso usar, embora o sexo oral seja mais frequente em relações ocasionais, como primeira forma de abordagem. É preciso usar o preservativo. Torna tudo mais higiénico e até evita alguns constrangimentos, relacionados com lubrificação excessiva, sabores que se consideram desagradáveis ou a ejaculação na boca da parceira quando ela não gosta. É ridículo não usar preservativo.

Mas é complicado, nomeadamente no caso do cunnilingus.
Sim, pode ser complicado, se pensarmos que podíamos estar a fazer outra coisa qualquer. Mas uma toalhinha de látex, um bocado de papel aderente, uma luva cortada ou o preservativo cortado permite que se faça à vontade pois não há transmissão de doenças e isso torna-nos mais livres. Qual é o mal? Até é divertido.

O que diz às mulheres que fingem ter prazer quando não têm?
São elas que perdem porque o parceiro, normalmente, tem. Da parte feminina, o fingimento faz com que eles repitam exactamente o mesmo procedimento e não aprendam. Há a ideia de que eles ficam chateados se lhes disserem. Outras receiam que se transforme numa obsessão, que se disserem ‘não consigo atingir o orgasmo’ eles ficam ali a insistir e é uma pressão para a mulher aquela ideia de que tem de ter um orgasmo em cada relação.

Há mulheres frígidas ou homens incompetentes?
Há mulheres e homens que são pouco habilidosos. Também não vou dizer que todas as mulheres estão completamente disponíveis para dar prazer aos homens. Mas há uma premissa de que ‘sexo é coito’. ‘Prazer só no coito.’ ‘O coito é suficiente para a mulher atingir o orgasmo.’ Os homens correspondem a estes parâmetros porque é mais fácil, eventualmente gostam mais que haja uma relação coital e também não dá muito trabalho. Mas é preciso dar aqui uma grande volta e encontrar novas formas de dar prazer um ao outro. Dizia-se que as mulheres eram frígidas. Talvez fossem mal estimuladas. Uma mulher satisfeita vai decerto procurar ter relações sexuais mais frequentemente.

Terceira idade significa necessariamente o fim do sexo?
A sexualidade na terceira idade sempre foi vista como uma coisa pouco própria. Ninguém imagina os avós ou os bisavós na cama. Mas não tem de ser pouco própria. E não é. Não é porque se tem mais quilos ou celulite que o sexo não pode acontecer. O sexo não tem prazo de validade desde que o casal tenha vontade e disponibilidade para continuar a explorar o próprio corpo. Há alterações físicas e fisiológicas que, de alguma forma, podem comprometer a sexualidade tradicional, a tal coital, e então ‘se não há penetração, acabou-se a minha vida sexual.’ Porquê? Não há outras maneiras de obter prazer? Há. Mas, se na minha cabeça a única forma de sexo é aquela, tudo o resto fica aquém e é desnecessário. Voltamos à história dos dez segundos de orgasmo.

O que é então o sexo?
É muito mais do que uma relação pénis/vagina. É comunicação, conseguir uma liberdade na relação de forma a dar e receber, é ter espaço para a ternura, para a sensualidade. Repare que a definição da OMS nem sequer refere a relação coital, o que é interessante. Mas esta troca entre as pessoas é essencial para o bem estar dos seres humanos.

Diz-se que somos cada vez mais sociedades sem Deus. Não temos ainda vergonha do olhar Dele?
É uma vergonha que nos chega através da educação. Mesmo se não há tantos católicos praticantes, mesmo que não pratiquemos, sentimo-nos todos católicos ou, pelo menos na nossa infância e juventude, herdámos essa forma de pensar católica. Eu tive uma instrução católica bastante intensa e penso que caridade, dar e receber são princípios básicos do catolicismo. Não se pode repudiar a homossexualidade, por exemplo. Não se pode dizer que é uma coisa do demo. As pessoas não escolhem ser homossexuais. Ninguém tem nada a ver com isso, desde que sejam dois adultos e os dois queiram.

(...)

Isabel Ramos, Correio da Manhã 30-03-2008

O que é pornografia IV

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Contribuição, em comentário, de Fabulástico.



É curioso que tenhas escolhido este tema que foi justamente a base da minha tese de pós-graduação.E é interessante ver as várias abordagens e sobretudo verificar a (muito comum)confusão de conceitos e que mais trabalho me deu em investigação.

A Pornografia é uma expressão repescada no séx.XIX do grego – pornē + graphein - que etimologicamente significa a escrita de ou para as prostitutas. Esta será a definição mais enciclopédica do termo mas também a que menos informação nos dá. Por implicar com vários campos da acção humana (religião, moral, lei, sexualidade, etc) a pornografia tem inúmeras definições, por vezes até contraditórias e que, regra geral, trazem em si uma implícita ou explícita condenação ou suporte da práctica.

Por outro lado, o discurso académico sobre a pornografia tem sido feito sobretudo no campo legal e legislativo.
Se o mundo cultural e intelectual querem mostrar abertamente o que durante séculos foi escondido, o mundo judicial e político tentam criam novas restrições. Mas mais do que uma questão de censura, trata-se de um problema relacionado com a política do corpo, ou melhor, com a biopolítica. Foi Foucault quem definiu alguns dos principais conceitos respeitantes à biopolítica mostrando as dimensões micropolíticas do poder, as suas suas hierarquias, a serialização dos indivíduos nos limites de cada instituição ligada ao panopticon que nos ajudam a perceber a forma como o poder cerce as nossas manifestações pessoais e como a loucura pode ser instrumento de liberdade. Agamben preocupou-se com a ontologia da política na sua relação com o espaço originário, nas suas relações básicas de poder e no seu papel na determinação fundamental da existência, adiantando os conceitos de estado de excepção e vida nua. O estado de excepção, que é proclamado pelo poder soberano de forma a suspender a validade da lei está a tornar-se na regra onde a dicotomia fundamental da dominação do poder absoluto e da vida nua deve ser entendida . Então,

«Até o conceito de “corpo” [...], já está desde sempre preso num dispositivo, ou melhor, é desde sempre corpo biopolítico e vida nua, e nada, nele ou na economia do seu prazer, parece oferecer-nos um terreno firme contra as pretensões do soberano.»


Contudo, Agamben não indica nenhuma possibilidade de o homo sacer limitar o poder soberano. Uma vez que - como demonstrou Deleuze - o poder é pensado numa relação entre o desejo e o interesse, a resposta possível estará na exaltação do desejo. Roger Bruegel – o comissário da última Documenta - acrescenta:

«[…] as in sexuality, absolute exposure is intricately connected with infinite pleasure. There is an apocalyptic and obviously political dimension to bare life […]. There is, however, also a lyrical or even ecstatic dimension to it – a freedom for new and unexpected possibilities […].»


A censura existe justamente pelo receio da força das imagens na mobilização dos nossos sentidos. Uma imagem vista como capaz de provocar desejo sexual, torna-se ofensiva e será necessariamente regulada, ou seja, terá acesso restrito ou será censurada. Entra no campo do interdito:

« Interdito indica uma ação intentada com o fim de proteção e caracterizada por um preceito proibitório, como o impedimento do uso, a fruição de bens ou o obstáculo ao acesso a lugares ou a coisas considerados sagrados ou puros.»(Mauro Koury, «Fotografia e Interdito»)

A exaltação do desejo tem que ser pensada dentro do quadro mental do pornográfico entendido como uma campo semântico tal como o poético, o fotográfico ou o cinematográfico. O pornográfico tem de ser aceite enquanto campo de largo espectro que engloba e imbui os conceitos de erótico, obsceno e interdito. Uma vez que as fronteiras e idiossincrasias deste últimos conceitos negam-se a uma classificação precisa: o que para uns é erótico, obsceno ou interdito, para outros é pornográfico e para outros ainda, emético ou anódino. Como mostrou David Freedberg:

«It might also be desirable to establish a distinction between erotic and pornographic, or at least to devise a sliding scale, beginning with a work that presents the nude cold, at it were, the passing to something that more blatantly suggests sexuality, and terminating with the representation of the sexual act itself. […Contudo…] The erotic-pornographic distinction may only be semantically real (and intersubjectively variable) […] it is not uncommon to find that the suggestive turns out to be more provocative than the blatantly descriptive.» (The Power of Images»)

Assim interessa sobretudo perceber a evolução das mentalidades na compreensão do que é o pornográfico pelo entendimento que se fez do que é a pornografia uma vez que «What is called pornographic remains wholly contextual; there can be no hope of deriving the term transcontextually or on anything remotely approaching a transcultural base.»

Na minha tese preocupei-me sobretudo com «O entendimento do pornográfico na arte contemporânea» na obra de artistas como Cindy Sherman, Mapplethorpe, Jeff Koons entre outros.

Falta de tempo e oportunidade impediu-me de poder incluir o teu trabalho. Talvez quando passar a tese de Doutoramento.

[ comentário originalmente dirigido ao Rogério Nuno Costa ]

O que é pornografia II

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Depois deste interessante mini-debate, proporcionado pelas respostas de carpe vitam, decidi dedicar mais algumas palavras ao assunto. Nos comentários de outro blogue, disse carpe, "É curioso verificar que pornografia vem de obscenidade e erotismo vem de amor. Claro que não são as palavras em si que importa, mas o conceito". Penso que aqui está um dos pontos essenciais, se se quiser compreender o fenómeno da pornografia. Quanto a mim, é exactamente a noção de obsceno que pode explicar o sucesso (e a eficácia) da pornografia. É porque ainda consideramos o sexo, o corpo e a nudez algo obsceno que a pornografia resulta. Uma das fórmulas de sucesso com maior longevidade e provas dadas é tão simples que nem chega a ser fórmula: o cru, o explícito é, só por si, excitante. Porque é que as imagens aproximadas de genitais (de pessoas que estão em plena cópula) são excitantes? Esteticamente, a maior parte destas imagens produzidas pela indústria pornográfica, não têm grande cuidado. Mais: até existe uma certa estética low-cost-amateurish que os realizadores gostam de explorar. Tal como as imagens tremidas de um acidente, captadas por câmara amadora prendem o olhar, a meio de um telejornal, a filmagem mal focada, com movimentos bruscos ou trôpegos, a má iluminação, num filme pornográfico, dão a ideia de algo que foi captado por olhos e mãos amadoras. É como se estivessemos a assistir, como voyeurs autorizados, a algo que não teve produção, não foi ensaiado. O sucesso de sites como o youporn.com, que se tornou uma empresa multimilionaria, ou de projectos numa onda de porno-gourmet, como os muito interessantes ifeelmyself.com e beautifulagony.com, ou ainda o ishotmyself.com, mostram que a palavra amateur é uma palavra mágica no mundo da pornografia. 

Voltando um pouco atrás, porque é que o obsceno é apelativo? Antes ainda, pensemos, porque é que o obsceno é obsceno? Recorrendo de novo à wikipedia: Obscenity (in Latin obscenus, meaning "foul, repulsive, detestable"), is a term that is most often used in a legal context to describe expressions (words, images, actions) that offend the prevalent sexual morality of the time. It is often replaced by the word salaciousness. A palavra, num sentido mais estrito, significa ofensa à moral sexual vigente. Já foi considerado ofensa, e crime, punido por lei (e em alguns locais do mundo ainda é), o sexo fora do casamento, o sexo anal, a masturbação, a homossexualidade.  O sentido em que a temos usado é um pouco diferente, significando tudo o que é considerado escandaloso, sexualmente, digno de ser escondido dos olhares de potenciais ofendidos. Juntando os dois sentidos da palavra, o que tem sido obsceno, ao longo dos tempos, com variações e contestações, é o corpo nu, o corpo praticando actos sexuais, ou mais precisamente os genitais. Não é à toa que as palavras obscenas, os insultos mais fortes, as plavras mais feias e insultuosas estão geralmente ligadas aos genitais.

Ao esconder-se o corpo, catalogando-o de indecente, está-se a atribuir-lhe um carga simbólica muito forte, como coisa proibida e desejada. Nas sociedades primitivas, e em muitas, dependendo do clima, as pessoas andam nuas, não creio que a pornografia tivesse grande efeito. A pornografia faz algo muito simples: mostra, revela. É esse o seu segredo. Um produto pornográfico não faz mais do que isso: coloca ao alcance do olhar o que estava vedado, por imposição da moral e dos bons costumes. A pornografia torna explícito o que estava escondido. E não resulta, obviamente, se o corpo nu, os actos sexuais, não estiverem, à partida, escondidos. 

Claro que, como todas as indústrias bem sucedidas, a indústria pornográfica cresceu e desenvolveu-se. Neste momento, estão disponíveis produtos para todos os gostos. Algumas correntes de feminismo acabaram por defender o direito à pornografia, como forma de acentuar a emancipação da mulher, na sua assunção de uma sexualidade livre, autónoma e plena. Neste momento a pornografia é mais do que começou por ser, quando, principalmente no ocidente, se decidiu esconder da vista o que está perfeitamente à mostra na natureza. E há países, como o Japão, em que a sexualidade é vivida de forma diferente da nossa, em que a pornografia também prosperou. Nesse país, o consumo de hentai é massivo, sendo comum encontrar um pai de família a ler um livro de manga pornográfica no metro. O que se mantém comum, parece-me, é que a pornografia é produzida e consumida como forma alcançar excitação sexual. E, de resto, são possíveis apropriações artísticas, simbólicas, filosóficas. Relembro as criações de Jeff Koons, representando actos sexuais com a sua esposa na altura, Cicciolina, sendo que o casamento, em si, foi entendido como um acto meta-artístico.

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(...)Com o advento do Estado Novo, assistir-se-ia a um regresso aos valores morais da religião cristã (o primeiro dos três pilares da doutrina do regime que era resumida na frase "Fátima, Fado e Futebol"), com a sexualidade a ser vista apenas como meio para a procriação e com a definição vincada dos papéis esperados para cada um dos sexos: aos homens caberia trabalhar, chefiar e sustentar a família; às mulheres cuidarem dos filhos e da casa. Associado a este retrocesso assiste-se à repressão de todas as outras expressões de sexualidade, em paralelo com a repressão a outras formas de expressão política e social: os actos homossexuais, bem como os outros chamados vícios contra a natureza (já que apenas era considerada moralmente válido o sexo genital, reprodutivo), voltaram a ser criminalizados.O regime de Salazar procederá ainda à censura sistemática de todo o conteúdo homossexual artístico, quer nacional quer estrangeiro, numa tentativa de evitar a quebra, a todo o custo, dos tabus morais instituídos. A Polícia de Segurança Pública manterá vigilância apertada aos locais de encontro ou convívio de homossexuais, efectuando rusgas inesperadas que resultavam na identificação e cadastração de todos os presentes, e, nalguns casos, na sua prisão. Os homossexuais, e outros acusados de conduta imoral ou vadiagem, como prostitutas, chulos, doentes mentais, mendigos ou as crianças em "risco moral", deviam ser escondidos da sociedade, e eram muitas vezes internados por longos períodos em estabelecimentos específicos de "reeducação", como as "Mitras", nos quais foram admitidos e maltratados de 1933 a 1951 mais de 12 mil pessoas[30].

Há também referência à detenção, tortura e deportação pela PIDE de homossexuais, associada muitas vezes à repressão política. É o caso de Júlio Fogaça, dirigente do Partido Comunista Português, então na clandestinidade, que em 1962 foi condenado como "pederasta passivo e habitual na prática de vícios contra a natureza". Não foi a primeira vez que Fogaça foi preso - já havia mesmo sido deportado por duas vezes - mas foi a primeira vez que a acusação de homossexualidade foi utilizada para o afastar da liberdade.

No entanto, não foi apenas o "regime" que condenou e reprimiu a homossexualidade. Júlio Fogaça seria também vítima da intolerância do Partido Comunista que o expulsou do Partido na mesma ocasião com base na sua conduta moral.(...)


Sexos, guerras e identidade

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Não foi só durante os anos 60 que assumir a sexualidade era um acto político. Para gerações de feministas e de activistas dos direitos LGBT, a sexualidade foi sempre um componente essencial da identidade pessoal e colectiva, um terreno de exercício de liberdades e direitos, um aspecto do quotidiano que necessita de se emancipar de preconceitos e moralismos. Ser livre sexualmente não é ser libertino nem é ser conservador, não é ser poliamoroso nem defender a virgindade até ao casamento, não é ser-se uma coisa por oposição a uma outra, de valor civilizacional inferior. É poder exercer o eu, de acordo com o que se é, intimamente, poder estabelecer que horizontes são desejáveis, que princípios são importantes. Agora que muitas constituições salvaguardam a igualdade de direitos das mulheres em relação aos homens, dos homossexuais em relação aos heterossexuais, é evidente que da teoria (em que cada um vive de acordo com o que deseja para si e ninguém tem o direito de impor as suas ideias aos outros) à prática, vai uma distância que é forçoso percorrer.

O sexUtopia surge em 2008, altura em que os netos dos homens e mulheres que fizeram a revolução cultural e sexual dos anos 60 já são crescidos. Serão estas novas gerações a ensinar-nos o que fracassou, serão estes netos da revolução, que não conheceram o mundo sem SIDA, os portadores inevitáveis da esperança que neles conseguirmos depositar. Há algo que já não admitimos que nos seja retirado. A liberdade de falarmos sobre os assuntos que escolhermos. E aqui vai-se falar de sexo, de pessoas e relações, do desejo e do prazer, do corpo.